Dr. Bruno Parentoni, Dr. Roberto Parentoni e Dr. Luca Parentoni no escritório Parentoni Advogados, boutique jurídica especializada em Direito Criminal e Direito Penal Econômico desde 1991. Ao fundo, a biblioteca jurídica do escritório, destacando a tradição e excelência em defesa penal. Escritório localizado no Edifício Itália, São Paulo, e no Complexo Brasil 21, Brasília.

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Por que o ser humano comete crimes?

A pergunta acompanha a humanidade desde que aprendemos a viver em sociedade.
E ela volta sempre, em diferentes momentos: depois de um noticiário, diante de uma investigação, no susto de quem recebe uma intimação ou no silêncio de familiares que tentam entender como a vida deu uma guinada.

Mais do que números, o crime é um fenômeno humano.
E como todo fenômeno humano, nasce de uma combinação delicada: contexto, escolhas, pressões, circunstâncias e, sobretudo, história.

A complexidade que não cabe em respostas simples

Reduzir o comportamento humano a uma única causa sempre foi tentador — e sempre foi um erro.
O Direito Penal só funciona quando reconhece a humanidade de quem está diante dele, com tudo que ela tem de força, fragilidade e contradição.

A criminologia contemporânea mostra que ninguém age no vazio.
Cada conduta é atravessada por fatores biológicos, emocionais, sociais, econômicos e ambientais.
Mas também por momentos de ruptura: medo, desespero, impulsividade, sensação de injustiça, influência de terceiros, ambientes violentos e decisões tomadas sob pressão.

A verdade é simples e incômoda: antes de qualquer rótulo, há uma pessoa.

Nem todo crime nasce da maldade — e isso muda tudo

Ao longo de 34 anos na defesa criminal, aprendi algo que não está nos livros:
os processos mais difíceis não começam pelo fato, mas pela pergunta esquecida — “o que estava acontecendo com essa pessoa naquele momento?”

Não se justifica o ilícito.
Mas se compreende a rota que levou alguém até ele.

E essa rota costuma envolver:

  • crises emocionais ou financeiras;

  • ambientes familiares desestruturados;

  • ausência de referências positivas;

  • violência sofrida antes de ser praticada;

  • sensação real de desamparo;

  • influência de grupos;

  • decisões impulsivas em segundos que mudam uma vida inteira.

A sociedade costuma ver apenas o momento final.
A defesa precisa ver o caminho completo.

Quando o crime nasce de estruturas — e não de indivíduos

Existe também a dimensão estrutural.
Em um país tão desigual, a criminalidade não é apenas ato individual: é sintoma de problemas profundos.

A literatura penal aponta relações claras entre:

  • crises econômicas e aumento de delitos;

  • precarização da educação e violência juvenil;

  • ausência de políticas públicas e criminalidade local;

  • vulnerabilidade social e recrutamento por grupos organizados.

Mesmo assim, a maior parte das pessoas consideradas “ordeiras” já cometeu algum tipo de infração que nunca virou processo — como mostrou um estudo clássico da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Ou seja: o comportamento humano é mais ambíguo do que gostamos de admitir.

E os crimes sem rosto: o avanço do “colarinho branco”

Se antes as estatísticas priorizavam a criminalidade clássica, hoje a globalização trouxe outro cenário:
delitos complexos, praticados por empresas, grupos profissionais ou estruturas inteiras.

Crimes que prejudicam milhares, embora muitas vezes passem despercebidos:

  • fraudes corporativas,

  • manipulações contábeis,

  • ocultação de beneficiários,

  • engenharia contratual abusiva,

  • movimentações financeiras que mascaram responsabilidades.

A criminalidade mudou de forma — mas continua humana.

A pergunta central: como a defesa deve responder?

É aqui que a leitura fina de cenário faz diferença.

Não existe uma resposta única para a criminalidade — e também não existe uma resposta única para sua solução.

O tratamento igual para todos (“prisão para tudo”) é, além de ineficaz, desumano.
Existem pessoas que não deveriam ser encarceradas.
Existem outras que não podem ser soltas.
E existem muitas que precisam de algo que o sistema raramente oferece: uma intervenção que compreenda sua história e não apenas seu erro.

A punição automática nunca resolveu o crime.
Séculos de história provam isso.

A solução começa pelo que parece óbvio, mas costuma ser ignorado:
entender quem está por trás do processo.

No centro de tudo, ainda está a pessoa

O Direito Penal lida com fatos.
A defesa lida com pessoas.

E é nesse encontro que a verdade aparece:
ninguém é o mesmo antes e depois de um processo criminal.
E ninguém deveria enfrentá-lo sem ser ouvido com atenção, discrição e profundidade.

A violência e a criminalidade que vemos são reflexo de algo maior — e a resposta passa por compreender o ser humano na sua totalidade.

No fim, a pergunta “por que alguém comete um crime?” só encontra resposta completa quando fazemos outra:
o que essa pessoa estava vivendo antes de tudo acontecer?

É a partir daí que começa qualquer defesa verdadeira.

Roberto Parentoni

Roberto Parentoni

Dr. Roberto Parentoni é advogado criminalista desde 1991 e fundador do escritório Parentoni Advogados. Pós-graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, é especialista em Direito Criminal e Processual Penal, com atuação destacada na justiça estadual, federal e nos Tribunais Superiores (STJ e STF). Ex-presidente do Instituto Brasileiro do Direito de Defesa (IBRADD) por duas gestões consecutivas, é também professor, autor de livros jurídicos e palestrante, participando de eventos e conferências em todo o Brasil.