Dr. Bruno Parentoni, Dr. Roberto Parentoni e Dr. Luca Parentoni no escritório Parentoni Advogados, boutique jurídica especializada em Direito Criminal e Direito Penal Econômico desde 1991. Ao fundo, a biblioteca jurídica do escritório, destacando a tradição e excelência em defesa penal. Escritório localizado no Edifício Itália, São Paulo, e no Complexo Brasil 21, Brasília.

Dr. Bruno Parentoni, Dr. Roberto Parentoni e Dr. Luca Parentoni | Parentoni Advogados

Quando alguém imagina o Tribunal do Júri, costuma pensar em provas, debates técnicos, laudos, testemunhas e longas sustentações. Mas quem já respirou um plenário de verdade sabe: o jurado não decide apenas pelo que ouve. Ele decide pelo que sente.

Essa é a parte invisível — e mais decisiva — do julgamento.

Depois de 34 anos de advocacia criminal, mais de 400 plenários realizados em São Paulo e em todo o Brasil, aprendi algo que nenhum processo revela: o jurado enxerga a humanidade antes de enxergar o crime.

E esse olhar silencioso molda o veredito muito antes da votação final.

Este artigo nasce de uma inspiração rara — um clássico português de 1977 — reinterpretado com a sensibilidade do Júri brasileiro contemporâneo. Não é um resumo da obra; é uma leitura viva, humana e empírica, amadurecida no calor do plenário e no peso real das vidas que defendemos.

Aqui está o que, de fato, um jurado vê, percebe e sente no Tribunal do Júri.


1. Antes de tudo, o jurado vê uma pessoa

O processo mostra fatos.
A defesa mostra contexto.
Mas o jurado — sempre — enxerga gente.

Ele observa:

  • a postura do réu,

  • a sinceridade no olhar,

  • a presença da família,

  • a forma como a defesa se comporta,

  • o respeito com que o caso é tratado.

A primeira impressão do jurado não é jurídica.
É humana.

E a defesa precisa saber conversar com esse primeiro impacto — com serenidade, verdade e responsabilidade.


2. O jurado forma quadros, não parágrafos

O jurado não raciocina como um técnico.
Ele cria imagens internas, pequenas narrativas mentais que organizam o caso.

Ele se pergunta:

  • “Essa história faz sentido?”

  • “Essa pessoa parece capaz disso?”

  • “Essa versão é coerente com o que vejo?”

  • “Essa dúvida é real?”

A acusação tenta montar um quadro fechado.
A defesa tenta abrir espaço para outro quadro — humano, plausível, verdadeiro.

Quem domina essa pintura invisível domina o plenário.


3. A oratória que toca não é a mais alta — é a mais honesta

O jurado não se impressiona com gritos, teatralizações ou discursos montados.
Ele percebe, com precisão fina, quando a fala nasce da essência do caso e quando nasce da necessidade de aparecer.

A oratória que funciona no Júri brasileiro é aquela que tem:

  • ritmo,

  • pausa,

  • propósito,

  • clareza,

  • presença,

  • valores.

E principalmente: verdade.

A fala que conquista o jurado não é a que explica mais.
É a que expõe a alma do caso.


4. A beca do advogado carrega responsabilidade moral

No plenário, a beca não é adorno.
É símbolo.

Símbolo de:

  • compromisso real,

  • respeito ao sofrimento humano,

  • coragem para defender direitos,

  • ética diante do risco,

  • serenidade em meio à tensão.

O jurado sente quem veste a beca com responsabilidade — e quem veste para si.

No Júri, até o silêncio comunica.


5. O silêncio bem usado pesa mais do que qualquer discurso

A acusação pode elevar o tom.
O plenário pode se inflamar.

Mas existe um instante onde tudo muda: o momento em que o defensor faz a sala parar.

É quando:

  • segura um documento,

  • olha nos olhos dos jurados,

  • respira,

  • e deixa que o que realmente importa encontre espaço.

Esse silêncio não é ausência de fala.
É presença absoluta.

E o jurado reconhece esse momento.


6. A dúvida não é técnica — é física

Para o jurado, a dúvida é quase um objeto que ele segura nas mãos.

Ela nasce quando:

  • uma foto não encaixa,

  • uma testemunha hesita,

  • um laudo se contradiz,

  • uma narrativa parece construída demais,

  • a defesa revela algo que ninguém viu.

E quando a dúvida entra…
ela não sai mais da sala.

O jurado sente a responsabilidade moral:
“E se eu estiver condenando alguém que não fez?”

Essa pergunta decide julgamentos.


7. A defesa que o jurado respeita

O jurado respeita o advogado que:

  • fala a verdade sem agressividade,

  • não humilha ninguém,

  • não promete o impossível,

  • trata o caso com dignidade,

  • não transforma dor em palco,

  • traduz o processo em história clara,

  • sustenta a palavra com serenidade,

  • olha nos olhos e se compromete.

A defesa ética, humana, firme e lúcida é a defesa que o jurado acompanha.

No Brasil, autenticidade vale mais do que performance.


8. A votação do jurado é mais moral do que jurídica

No momento do voto, o jurado não pensa como um tecnicista.

Ele pensa como um ser humano diante de outro ser humano.

Ele se pergunta:

  • “É justo?”

  • “Eu dormiria em paz com esta decisão?”

  • “Essa família merece outra chance?”

  • “Esse caso tem mais camadas do que parece?”

  • “E se fosse comigo? E se fosse meu filho?”

A defesa não fala apenas à lógica.
Fala ao moral.

Não manipulando — mas revelando.


9. O que 34 anos e 400 plenários ensinaram

Aprendi coisas que livro nenhum explica:

  • O jurado sente antes de entender.

  • O jurado enxerga a verdade no modo de falar.

  • O jurado percebe incoerências até no caminhar até o banco dos réus.

  • O jurado se conecta mais com pessoas do que com teses.

  • O jurado respeita quem respeita o caso.

  • O jurado não esquece quem defendeu com dignidade.

E aprendi que o defensor não convence — o defensor revela.

Revela a pessoa antes do processo.
Revela o contexto antes da culpa.
Revela o que o caso ainda não contou.

E é isso que, no fim, decide.


Conclusão: o jurado vê o que a Justiça às vezes não enxerga

O jurado tem algo que nenhum artigo de lei possui: a capacidade de ver o ser humano inteiro.

E é por isso que o Tribunal do Júri continua sendo o espaço mais profundo, honesto e difícil do Direito Penal.

Se você — ou alguém que você ama — enfrenta um processo criminal, saiba:
há defesa, há dignidade e há caminho.
Cada caso sério merece ser ouvido com atenção, sigilo e decisão precisa.
Quando quiser conversar, estamos aqui.

Roberto Parentoni

Roberto Parentoni

Dr. Roberto Parentoni é advogado criminalista desde 1991 e fundador do escritório Parentoni Advogados. Pós-graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, é especialista em Direito Criminal e Processual Penal, com atuação destacada na justiça estadual, federal e nos Tribunais Superiores (STJ e STF). Ex-presidente do Instituto Brasileiro do Direito de Defesa (IBRADD) por duas gestões consecutivas, é também professor, autor de livros jurídicos e palestrante, participando de eventos e conferências em todo o Brasil.