Na prática, o processo penal não começa na denúncia.

E, muitas vezes, quando chega a esse ponto, algumas das decisões mais relevantes já foram tomadas.

Entre o que aconteceu e o que passa a constar formalmente no processo, existe um intervalo que raramente recebe a devida atenção. É nesse espaço que se formam versões, se consolidam impressões e, por vezes, se define o rumo de um caso antes mesmo da sua formalização.

O que é dito em um primeiro contato.
A forma como um fato é apresentado.
O momento em que determinadas informações surgem.

Nada disso costuma aparecer com clareza nos autos. Ainda assim, exerce influência real sobre o desenvolvimento posterior do processo.

A estrutura formal do processo penal tende a organizar os fatos de maneira lógica e sequencial. No entanto, a prática revela que essa organização nem sempre corresponde ao modo como as decisões vão sendo construídas.

Há elementos que antecedem a própria dinâmica processual e que, embora não documentados, acabam por orientar a leitura do caso. São percepções iniciais, escolhas estratégicas e movimentos que não se traduzem integralmente em peças processuais, mas que deixam marcas.

Isso não significa que o processo formal seja irrelevante. Ao contrário, ele é o espaço de controle, de contraditório e de reconstrução possível do que foi apresentado. Mas ignorar o que acontece antes dele é desconsiderar uma dimensão importante da realidade.

Em muitos casos, a atuação técnica eficaz não se limita ao domínio das normas ou à elaboração de peças. Ela envolve a compreensão do contexto em que o caso se desenvolve, da forma como os fatos são percebidos e das escolhas que, silenciosamente, moldam o cenário.

A ideia de que tudo o que importa está nos autos é, em certa medida, confortável. Simplifica a análise e reduz a complexidade. Mas a prática demonstra que o processo penal se constrói também fora das suas páginas.

E talvez seja justamente nesse ponto que reside uma das maiores dificuldades da atuação: lidar com aquilo que não está formalmente posto, mas que, ainda assim, influencia o resultado.

Parte dessas reflexões foi recentemente desenvolvida em obra dedicada ao tema.

Roberto Parentoni

Roberto Parentoni

Dr. Roberto Parentoni é advogado criminalista desde 1991 e fundador do escritório Parentoni Advogados. Pós-graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, é especialista em Direito Criminal e Processual Penal, com atuação destacada na justiça estadual, federal e nos Tribunais Superiores (STJ e STF). Ex-presidente do Instituto Brasileiro do Direito de Defesa (IBRADD) por duas gestões consecutivas, é também professor, autor de livros jurídicos e palestrante, participando de eventos e conferências em todo o Brasil.