Luca Parentoni, Roberto Parentoni, Bruno Parentoni - advogados criminalistas- Parentoni Advogados

Luca Parentoni, Roberto Parentoni, Bruno Parentoni – advogados criminalistas- Parentoni Advogados

O aparte fora do Plenário do Júri, mas dentro do Tribunal

O Tribunal do Júri é marcado por emoção, tensão e acontecimentos que nem sempre podem ser previstos. Uma palavra inesperada, uma acusação feita fora de contexto ou uma informação apresentada sem o devido esclarecimento podem alterar a compreensão dos fatos.

Em um dos casos mais marcantes da minha trajetória como advogado criminalista, vivi uma situação que me ensinou, mais uma vez, que a defesa começa muito antes de o advogado ocupar a tribuna.

A defesa começa antes do julgamento

O processo havia sido desmembrado. Um dos réus seria julgado primeiro e estava sendo defendido por um colega e amigo. O julgamento do meu cliente aconteceria somente alguns meses depois.

Embora ainda não fosse o momento de sua defesa, decidi acompanhar aquele primeiro Tribunal do Júri da plateia. Queria compreender a linha que seria adotada pela acusação, observar o comportamento das testemunhas e identificar aspectos que poderiam ser relevantes para a preparação do julgamento seguinte.

Essa presença não era apenas uma precaução. No Tribunal do Júri, conhecer os autos é indispensável, mas nem tudo está registrado no processo. A maneira como uma testemunha se expressa, suas hesitações e a forma como os fatos são apresentados também ajudam o advogado a compreender o cenário que encontrará no plenário.

Uma acusação inesperada

Durante o depoimento de uma testemunha de acusação, aconteceu algo que não estava previsto.

No decorrer de sua fala, a testemunha passou a acusar diretamente o meu cliente, embora ele não estivesse sendo julgado naquela ocasião. A afirmação surgiu de maneira inesperada e fora do contexto daquele julgamento.

Eu estava na plateia, sem participar formalmente do ato, mas era o advogado da pessoa que acabava de ser mencionada e acusada sem que estivesse presente para se defender.

Naquele instante, percebi que permanecer em silêncio também teria consequências.

O aparte feito da plateia

Levantei-me e questionei a testemunha sobre a afirmação que acabara de fazer.

Não se tratava de um aparte previsto pelo rito do Tribunal do Júri, pois eu não ocupava a tribuna e tampouco atuava formalmente naquele julgamento. A juíza imediatamente esclareceu que a intervenção não era permitida.

O esclarecimento estava correto. Ainda assim, a pergunta já havia revelado algo importante: quando confrontada, a testemunha não conseguiu explicar satisfatoriamente a acusação que havia feito contra o meu cliente.

O Tribunal mergulhou em silêncio. Mais do que uma cena de impacto, aquele momento demonstrou a fragilidade de uma afirmação que, até então, havia sido apresentada sem qualquer questionamento.

Atenção também é uma forma de defesa

Meses depois, chegou o momento do julgamento do meu cliente.

A experiência anterior permitiu que a defesa conhecesse antecipadamente a acusação, compreendesse suas fragilidades e se preparasse para enfrentá-la com maior profundidade. No plenário, os fatos foram examinados dentro de seu contexto e as inconsistências daquela narrativa puderam ser demonstradas.

Ao final do julgamento, meu cliente foi absolvido.

Não seria correto atribuir o resultado a um único momento. Uma absolvição no Tribunal do Júri é construída a partir do conjunto da prova, da preparação técnica, da estratégia adotada e da forma como os acontecimentos são apresentados aos jurados.

Entretanto, aquele episódio confirmou uma convicção adquirida ao longo de muitos anos de advocacia criminal: a defesa não se limita aos atos formais do processo.

Ela também está na presença, na escuta, na observação e na capacidade de perceber aquilo que poderia passar despercebido.

O que esse julgamento me ensinou

Defender alguém exige conhecimento jurídico, mas também exige atenção permanente. O advogado precisa compreender o processo, antecipar movimentos e estar preparado para situações que não aparecem nos livros ou nas peças processuais.

Isso não significa ignorar os limites do procedimento. Significa reconhecer que, por trás de cada processo, existe uma pessoa que depende de uma defesa atenta, responsável e verdadeiramente presente.

No Tribunal do Júri, cada palavra tem peso. Mas, muitas vezes, é o que acontece antes do julgamento que permite à defesa compreender como e onde essa palavra deverá ser enfrentada.

Cada caso possui circunstâncias próprias e deve ser analisado individualmente. Diante de uma acusação criminal, buscar orientação desde os primeiros acontecimentos pode ser decisivo para preservar provas, compreender o cenário e construir uma estratégia de defesa.

Roberto Parentoni

Roberto Parentoni

Dr. Roberto Parentoni é advogado criminalista desde 1991 e fundador do escritório Parentoni Advogados. Pós-graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, é especialista em Direito Criminal e Processual Penal, com atuação destacada na justiça estadual, federal e nos Tribunais Superiores (STJ e STF). Ex-presidente do Instituto Brasileiro do Direito de Defesa (IBRADD) por duas gestões consecutivas, é também professor, autor de livros jurídicos e palestrante, participando de eventos e conferências em todo o Brasil.