Dr. Bruno Parentoni, Dr. Roberto Parentoni e Dr. Luca Parentoni no escritório Parentoni Advogados, boutique jurídica especializada em Direito Criminal e Direito Penal Econômico desde 1991. Ao fundo, a biblioteca jurídica do escritório, destacando a tradição e excelência em defesa penal. Escritório localizado no Edifício Itália, São Paulo, e no Complexo Brasil 21, Brasília.

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Entre o rábula e o doutor: o que nunca mudou na advocacia criminal

Em tempos de processo eletrônico, inteligência artificial, peticionamento digital e julgamentos cada vez mais acelerados, a advocacia moderna parece cercada por técnica, formalidade e linguagem especializada.

Mas talvez exista uma pergunta anterior a tudo isso.

O que, afinal, sempre definiu um advogado?

A resposta pode estar justamente em uma figura histórica quase esquecida pela própria advocacia brasileira: o rábula.

Muito antes da estrutura atual dos cursos jurídicos, da expansão das faculdades de Direito e da formalidade institucional que hoje envolve a profissão, já existiam pessoas que atuavam na defesa de interesses alheios perante autoridades e tribunais.

Nem sempre possuíam formação acadêmica.

Mas possuíam algo que atravessa o tempo até hoje: a capacidade de sustentar razões em favor de alguém.

O rábula e a origem prática da defesa

O rábula ocupou, durante longo período da história brasileira, um espaço peculiar dentro da prática forense.

Atuava sem graduação formal em Direito, muitas vezes amparado pela experiência prática, pela convivência com os tribunais e pelo conhecimento adquirido no exercício cotidiano das causas.

Naturalmente, o desenvolvimento institucional do país exigiu a profissionalização da advocacia e a consolidação da formação jurídica técnica, algo indispensável à própria segurança do sistema de justiça.

Mas a existência histórica do rábula revela um aspecto importante.

A advocacia nasceu da necessidade humana de defesa antes mesmo da formalidade acadêmica absoluta.

Antes dos títulos, já existia alguém tentando proteger direitos, enfrentar acusações e sustentar teses diante do poder.

E talvez isso explique por que a advocacia criminal preserve, até hoje, uma dimensão humana tão intensa.

A formação da advocacia brasileira e a tradição do “doutor”

Com a criação dos cursos jurídicos no Brasil, em 1827, a advocacia passou gradualmente a ocupar papel central na formação intelectual, política e institucional do país.

As tradicionais escolas jurídicas brasileiras passaram a formar não apenas advogados, mas também ministros, parlamentares, diplomatas e figuras centrais da própria construção institucional brasileira.

Foi nesse contexto histórico que se consolidou culturalmente o tratamento honorífico de “Doutor” dirigido aos advogados.

E talvez exista um equívoco moderno na forma como esse tema costuma ser discutido.

Ao contrário do que muitas vezes se repete, não existe um decreto imperial afirmando literalmente que “advogado é doutor por excelência”.

O que efetivamente existiu foi a construção histórica de uma posição institucional e intelectual diferenciada da advocacia dentro da sociedade brasileira.

Mais do que formalidade ou vaidade, o tratamento carregava um simbolismo próprio.

O advogado passou a ser percebido como alguém chamado a interpretar conflitos humanos complexos, sustentar teses, enfrentar arbitrariedades e, muitas vezes, limitar o próprio poder estatal.

Não se tratava apenas de conhecer leis.

Tratava-se de compreender cenários.

Especialmente na advocacia criminal.

A advocacia criminal além da burocracia

Na prática, o processo penal raramente chega acompanhado apenas de autos.

Normalmente, ele vem cercado de medo, desgaste emocional, versões conflitantes, exposição, impacto familiar e incertezas sobre o futuro.

E talvez seja justamente nesse ponto que a essência histórica da advocacia continue intacta.

Mudaram os sistemas.

Mudaram os tribunais.

Mudou a velocidade da informação.

Mas permanece a necessidade de alguém que consiga ouvir, interpretar estrategicamente os fatos e sustentar uma defesa tecnicamente possível diante do poder estatal.

A advocacia criminal moderna exige domínio técnico rigoroso, atualização constante e compreensão profunda do processo penal contemporâneo.

Mas ela continua exigindo também algo que antecede qualquer diploma, software ou inteligência artificial: a capacidade humana de defesa.

O que nunca mudou na defesa criminal

Talvez por isso algumas das atuações mais relevantes da advocacia não estejam necessariamente nos grandes discursos ou nas manifestações mais visíveis.

Muitas vezes, estão nos detalhes.

No momento adequado de falar.

Na decisão estratégica de não falar.

Na leitura correta do cenário.

Na percepção do que ainda não apareceu formalmente nos autos.

Porque, na prática, a teoria nem sempre decide sozinha.

O contexto também participa das decisões.

E compreender isso talvez sempre tenha separado a advocacia puramente burocrática da advocacia efetivamente estratégica.

Entre o rábula e o doutor, a essência permanece

Entre o rábula e o doutor, evidentemente, muita coisa mudou.

A advocacia evoluiu.

O Direito se sofisticou.

As garantias processuais se fortaleceram.

Mas talvez o essencial permaneça exatamente o mesmo.

Ainda hoje, alguém continua procurando um advogado quando percebe que sozinho já não consegue mais enfrentar determinada situação.

E isso talvez revele algo importante.

A advocacia nunca foi apenas sobre títulos.

Desde o início, sempre foi sobre defesa.

Roberto Parentoni

Roberto Parentoni

Dr. Roberto Parentoni é advogado criminalista desde 1991 e fundador do escritório Parentoni Advogados. Pós-graduado pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, é especialista em Direito Criminal e Processual Penal, com atuação destacada na justiça estadual, federal e nos Tribunais Superiores (STJ e STF). Ex-presidente do Instituto Brasileiro do Direito de Defesa (IBRADD) por duas gestões consecutivas, é também professor, autor de livros jurídicos e palestrante, participando de eventos e conferências em todo o Brasil.